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Sean Murphy – 5%

Marcos X-Salada 5 de abril de 2012 "O" Artista, Chupinhado, Opinião 2 Comentários
Sean Murphy – 5%

Sean Murphy não tem papas na língua, escreve o que pensa do mercado americano – mesmo estando dentro do mercado americano – e não tem vergonha de dizer “desculpe, eu estava errado”.

Vendo a repercussão que o Plano de 5 Anos teve por aqui, trazemos outro post dele. Esperamos que faça tanto sentido em nosso mercado quanto no americano. Ele nos disse que espera vir logo ao Brasil, mas mesmo sem nos visitar ele já se tornou o maior colaborador do nosso site. Thanks, Sean!

Sem mais delongas, 5%, de Sean Murphy:

Se você está lendo isso, quer dizer que você é provavelmente, parte dos 5%. A maioria das pessoas que entra na Internet para ler sobre quadrinhos acaba lendo previews e Listas de 10 Mais – algo que, claro, todos nós curtimos. Mas os artigos/blogs que fazem uma análise crítica da industria de quadrinhos são geralmente lidos por dois tipos de pessoas apenas: pessoas do metier, que são afetadas pelo assunto, e os pouquíssimos leitores que se interessam em ler mais do que os balões sobre quadrinhos.

Não estou querendo criticar as pessoas que não leem esses artigos. Todos os leitores estão contribuindo para a industria com seu poder de compra, e estou grato à eles, mesmo eles não estando entre os 5%. Devo admitir, se tivesse um trabalho regular, em tempo integral e um chefe chutando minha bunda 5 dias por semana, provavelmente eu não teria saco para esse tipo de artigo também.

Dito isso, eu acho que precisamos de mais desses artigos/blogs escritos de pontos de vista diferentes – especialmente mais artigos escritos por autores de HQ. Essa será lembrada como a década em que quadrinhos se tornaram digital em larga escala – será uma década mais definida pela tecnologia do que pelo conteúdo. E temo que estejamos fazendo essa transição sem termos discutido o bastante. O que é meio-bobo, pois nós, as pessoas relacionadas à quadrinhos, somos um grupo “plugado”, que ama Sci-Fi, pensadores do futuro – não há motivo nenhum para nós (de leitores, passando por criadores até editoras) não podermos navegar esse navio através da década digital. Se tem uma coisa que aprendemos com o fiasco de Bank of America/ Netflix/ Primavera Árabe é que plebeus agora podem dominar reis. E mais participantes nessa discussão nos ajudará a fugir das publicações business-as-usual.1

Mas, “com grande poder vem grande responsabilidade”.

Procurando mais contribuintes para essa conversa intelectual, fiquei feliz de achar exemplos como o artigo de Ron Marz sobre futuristas como Warren Ellis, Augie De Blieck e Christian Sager. A razão pela qual penso que criadores devem entrar nessa discussão é que haverá mais chances da participação do “leitor padrão” se o assunto for trazido à tona pelo seu criador favorito. Se os criadores não entrarem na discussão, então ninguém vai. Pois o CBR e Newsarama não promovem isso normalmente. E aqui está o porquê:

Artigos relacionados à saúde e futuro dos quadrinhos não promovem o mesmo tráfego que previews e listas de Top 10 (talvez só 5%, de acordo com minha fonte). Com menos tráfego, artigos intelectuais geram menos dinheiro em relação à anúncios. Então, sites de quadrinhos pagam menos aos repórteres para escrevê-los – ou simplesmente decidem não publicar/postar nada. Melhor pagar o dobro para um artigo de opinião sobre os 10-Mais ou colocar no ar uma preview da Marvel de graça. Ainda melhor: apenas re-publicar um artigo escrito por algum criador de graça (o meu Plano de 5 Anos foi re-publicado várias vezes por esses sites. Apenas um com minha permissão pelo meu amigo Ron Marz).2 E não estou reclamando disso – espalhar ideias de graça é o que essa discussão intelectual precisa. Só quero dizer que não podemos depender de notícias ou repórteres para começar essa discussão por nós. A não ser que esses repórteres estejam dispostos a trabalhar de graça em seu próprio blog/site (o que alguns, ainda bem, fazem).3

Outra razão pela qual gostaria que criadores discutissem mais sobre isso é que seus blogs não são tão editados quanto suas entrevistas. Já estive envolvido com várias entrevistas promocionais e fiquei perturbado com a quantidade de interferência que meu editor tinha no que poderia ser publicado no artigo – e era muito mais do que contenção de spoilers. Muitas empresas tem um departamento de Relações Públicas (RP) que tem como único trabalho controlar informação – e isso não é surpresa para ninguém. Se dependesse deles, seria sempre publicidade feliz-positivo-feliz-positivo-feliz-positivo-todos-aplaudindo-juntos. Discussões francas e intelectuais tendem a incomodar essas pessoas pois faz parecer que tem algo de errado com o status quo. O que, para eles, trata-se de RP negativas. E não culpo os relações públicas por fazerem seu trabalho, mas pressionar a imprensa em um padrão de conformidade não é uma maneira saudável para que nossa industria opere.

Estou ciente de que minhas contribuições não são sempre populares entre os criadores. Ou editoras. Ou leitores. Eu imagino que a frase “eu gosto mais da arte de Murphy do que do próprio Murphy” esteja virando um MEME. E aceito isso. Mas apenas quero que entendam que não tenho objetivo de aborrecer pessoas, mas colocar minhas ideias numa discussão maior, que gostaria que todos participassem. Então, se você é um autor e discorda de alguma coisa que eu disse, te imploro que escreva sua resposta. Uma discussão saudável são dois pontos de vistas diferentes afiando-se um contra o outro. Muitas vezes, quando participo de discussões assim, alguém acaba me olhando com aquela cara de “é melhor você fechar a boca”. Essa é a pior atitude! Só serve para parar a conversa! Se você não tem estômago para uma conversa futurista, saia e deixe a conversa continuar sem você!

Aqui estão algumas coisas que acho que podemos fazer para gerar uma década mais saudável:

Leitores: Se você tem energia para isso, se envolva na discussão. Ao menos clique nas páginas de discussões intelectuais para dar uma impressão de alto-tráfego. E, se você puder, vá à convenções pois elas normalmente se tornam o hype das discussões (com cerveja!). É também o lugar onde quadrinhos encontram novas tecnologias e mídias. A industria de quadrinhos não vai falir porque nossas convenções são muito populares. Só pode vir coisa boa disso.

Autores: Falem nos seus blogs! Mas pesquisem. Eu tenho esses blogs pois quero manter a conversa honesta. As vezes eu piso na linha e, caso ferre tudo, tento admitir depois. Se você não gosta de escrever esse tipo de coisa, talvez você tenha algum amigo repórter que esteja escrevendo algum artigo que você apoie – ofereça um comentário para que ele possa vender mais facilmente à seu editor.

Imprensa: Os sites deveriam continuar com previews e listas de 10-Mais, claro. Se elas produzem tráfego, que assim seja. Mas seria justo, equilibrado e de grande valia se nos afastássemos do modelo Revista Tititi de jornalismo e começar a trabalhar em pesquisa. Se você fizer isso bem feito, você terá mais do que se gabar do que quando coloca itálico na palavra “exclusivo” quando uma editora te joga um osso.

Editoras: continuem abraçando a tecnologia digital e trabalhem com sites como Comixology. Somos uma industria pequena e somos mais experientes – tecnologicamente falando. Espero que a comunidade dos quadrinhos seja a primeira a inventar um mercado digital saudável. Nosso objetivo é estabelecer uma industria em que tanto os autores quanto editoras possam ter renda e sobreviver. Uma industria que abraçe novas idéias, reconheça novos talentos e está na crista da onda de novos ramos tecnológicos.

E, aliás, bom trabalho com o reboot. Eu tinha minhas dúvidas, mas estava, claramente, enganado. E acho que comerciais na TV ajudam. E espero que vocês tenham um plano B para quando SS Diamonddia4 acabar como o Costa Concordia.5

Como sempre, obrigado por desprender tempo para ler. 

 - Sean Gordon Murphy –  . 

1- Modelo de negócio estilo “não-se-mexe-em-time-que-está-ganhando”.

- Não é o caso do Kokocast. Nós fomos autorizados.

Esse é caso do Kokocast.

4- Diamond é a responsável pela distribuição de quadrinhos nos EUA. Vários artistas tem reclamado – já há alguns anos – de como ela está aos poucos se tornando um cartel, decidindo que tipo de quadrinhos podem ser publicados e como. Os autores também reclamam que a Diamond nunca se deu ao trabalho de mostrar que pesquisas são feitas para saber como e onde os quadrinhos devem ser distribuídos.

- O navio que “virou”.

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2 Comments

  1. Lafaiete 23 de abril de 2012 at 12:10

    Diferente do que Sean Murphy disse,eu sou o contrário.Comecei a ler os artigos dele pra depois notar que ele é um artista fenomenal!Se houvessem mais uns cinco ou seis assim,os quadrinhos evoluiriam uma enormidade!

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