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O Manifesto A para B de Mark Andrew Smith

5horas 28 de maio de 2012 Chupinhado, Opinião Nenhum Comentário
O Manifesto A para B de Mark Andrew Smith

 

Mark Andrew Smith é autor de quadrinhos há nove anos. Ele é o co-criador de Gladstone’s School for World ConquerorsThe New Brighton Archeological Society e The Amazing Joy Buzzards

No dia 23 de maio Smith publicou em seu tumblr um post com o singelo título de “The A to B Manifesto. The creator as retailer. (Spread it)“. Trata-se de um manifesto acerca de suas opiniões quanto ao mercado de quadrinhos americanos, que tem sido cada vez mais criticado – especialmente no tocante à distribuidora Diamond.

Seu manifesto está causando rebuliço pela internet e pode ser lido em diversos sites especializados. O autor nos autorizou a traduzi-lo e publicá-lo no Kokocast. Vocês notarão que muita coisa pode ser adaptada para nosso mercado.

O Manifesto A para B
Quadrinistas como distribuidores

Estamos na beira de uma nova Era de ouro dos Quadrinhos. Nunca houveram tantos diferentes materiais, temas e histórias à serem escolhidas.

Realmente existe uma HQ para cada leitor debaixo do céu. E em um futuro próximo, HQs-próprias (de criadores) estarão difundidas no mercado comum da sociedade de uma forma especial.

Nesse artigo, particularmente, me refiro à HQs que sejam propriedade de seus criadores e não aplico essas ideias à Marvel ou DC.

Esse não é um artigo onde falarei e farei previsões sobre o inglório destino de ninguém. Acredito que existem recursos infinitos em termos de alcançar potenciais leitores e e potencial infinito de crescimento. O sucesso de um tipo de modelo de distribuição definido não quer necessáriamente prever o fim do próximo e, de fato, todos podem se beneficiar igualmente uns dos outros e crescer juntos.

A mensagem principal desse artigo é “criadores em primeiro lugar”, e explicarei isso. Essa é a Era dos Criadores.

HQs autorais: o lado inverso da pirâmide

Um autor de quadrinhos que realmente respeito muito, geralmente diz que as pessoas focam no lado negativo do mercado das HQs, mas não consegue achar soluções para isso. Para esse artigo terei que falar do lado ruim antes de chegar às soluções. Então, por favor, seja paciente.

Esse artigo é um ponto de partida para outros acrescentarem ou discordarem. Estou dando minha opinião aqui e depois não terei nada para acrescentar ou debater. Sinta-se à vontade para pegar a tocha e correr com ela, se quiser.

Também farei isso sem apontar o dedo ou culpar ninguém. O estado em que estão os quadrinhos agora não é culpa de ninguém.

O atual sistema de distribuição dos quadrinhos (americanos) tem se mostrando falho para as HQs autorais há alguns anos. Os quadrinhos são uma mídia em que autores criam coisas apaixonadamente – de uma forma quase prejudicial aos mesmos. Eles investem seu tempo, dinheiro e energias para criar seus quadrinhos e as vezes são necessários anos antes que a HQ esteja pronta para ser publicada.

Os criadores colocam o álbum nas mãos da distribuidora e cruzam os dedos para saber onde ele vai parar. E normalmente, o sistema de distribuição os prejudica de várias maneiras. Eu prevejo boa saúde para as HQs em alguns anos, mas você terá que ler as próximas sessões do Manifesto A para B para entender o motivo.

O sistema de distribuição dos quadrinhos, como está, é uma pirâmide invertida com os criadores embaixo. Bem embaixo. Nessa pirâmide de ponta-cabeça, os criadores são os últimos a serem indenizados por seu trabalho e eles deixam os restos depois que todos já acabaram (se ainda há alguma coisa).

Os criadores são os que gastam tempo e energia no produto que será vendido. Mesmo se você promover massivamente seu álbum, você o faz para conseguir dinheiro para outra pessoa.

A distribuidora ganha seu dinheiro, a gráfica, a editora e os vendedores são todos pagos antes do artista conseguir fazer qualquer coisa ou recuperar o dinheiro investido em um álbum. É fácil perder dinheiro depois que todos já foram pagos e isso é bem comum.

Normalmente, o aluguel é muito caro e é difícil para um autor recuperar seu investimento a não ser que haja um grande volume de venda. Normalmente, é a excessão, não a regra. Ou, como diz Eric Powell, “receber bem de trabalhos autorais é como vencer na loteria”.

O sistema de distribuição prejudica os autores à todo momento. Se você trabalha por anos em um álbum e os revendedores não pedem cópias o bastante, então seu álbum está morto, estrangulado em seu berço. E não é culpa dos vendedores; é a natureza do processo de distribuição atual.

Se é culpa de alguém, essa culpa é dos criadores, por não fazer mais para manter seu futuro em suas próprias mãos, sendo empreendedores.

Existem tantos livros no mercado que é difícil para vendedores se arriscarem com tudo, já que eles não recebem por livros não vendidos. É por isso que eles seguem o que é seguro e apostam no retorno-certo, para não perder dinheiro. Eu faria o mesmo se fosse eles.

Mas relaxe, tudo o que conhecemos está prestes a mudar e logo viraremos essa pirâmide pra posição certa e os autores estarão no lugar certo: no topo. A distância mais curta entre dois pontos é uma linha reta. Isso será a melhor chance para todos os envolvidos, e todos serão beneficiados, com os autores estarem, novamente, no topo da pirâmide. Explicarei isso depois de cobrir meu próximo ponto.

Terra de Ninguém

Para fazer com que os quadrinhos cresçam, temos de parar de agredir uns aos outros por um pequeno pedaço de terra. Vários quadrinhos são lançados todo mês e tem que lutar por espaço nas estantes. Eles brigam por um pequeno terreno e espaço nas lojas especializadas em quadrinhos. Quadrinhos autorais são como peixinhos num aquário com dois grandes tubarões brancos (Marvel & DC).

O truque é apenas sair desse pequeno pedaço de terra, onde está acontecendo toda essa agressão e contruir seu próprio terreno, que será seu próprio reino e refletirá o que você pensa. O truque é achar sua própria audiência e vender diretamente à eles, estabelecendo um relacionamento de comunicação direta com o leitor.

Mesmo as lojas de quadrinhos digitais estão cheias de travas e o mesmo acontece com diversos autores batalhando por um espaço e atenção limitados. Com a Marvel e a DC tomando a frente e HQs autorais vindo atrás. Se você não está em destaque, você não está lá. A não ser que as pessoas entrem procurando por seu trabalho, elas não vão encontrá-lo em uma loja digital – que eu considero falha.

Para muitos de nós, isso consiste de pessoas que já conhecemos; não subtraindo as das comic shops, mas beneficiando-as com o decorrer do tempo.

Pirataria

Nós temos que diminuir o preço das HQs digitais para que seja mais fácil comprar os quadrinhos do que pirateá-los. Também temos que fazer com que as pessoas entendam que outras pessoas fazem as HQs e dependem disso para seu sustento. Eu penso no mesmo que Louis C.K. fez recentemente. Pois se os leitores tem uma conexão e interação real com os autores, será exponencialmente mais difícil de piratear deles.

Eu tirei os pontos negativos do caminho e é tudo arco-iris, raio-de-sol e unicórnios no restante desse artigo. Prometo. Essa parte foi difícil de fazer e tenho certeza que vou revisitá-las quando tiver um feedback de amigos, dando uma polida numa versão beta. Agora eu só quero colocar as ideias no papel, para poder escrever e finalizar isso, pra não ser um monte de rascunhos no caderno.

Soluções

A distância mais curta entre dois pontos é uma linha reta e para que os quadrinhos cresçam no futuro, as HQs tem de ir do ponto A (o autor) ao ponto B (o leitor). Vivemos em bons tempos, em que, mais uma vez, criadores estarão no topo da pirâmide. Com a pirâmide virada pra cima. Talvez, pela primeira vez na história.

Para que os quadrinhos cresçam, os criadores tem que tomar o palco como vendedores e temos que começar a criar um espírito empreendedor para podermos controlar nossos próprios destinos. Em 1988 um grupo de criadores se reuniram e criaram o “Projeto de Lei dos Direitos dos Criadores”*. Acredito que hoje, com tantos avanços tecnológicos é hora de atualizar esse projeto com um novo direito: o direito do criador como vendedor. Acho que para os quadrinhos funcionarem, eles tem que sair das comic shops. Ou melhor, os quadrinhos tem que continuar nas comics shop e fora das comic shop, em novos solos. Para que os criadores vençam, eles tem de se desgrudar do agregado de quadrinhos com o qual sempre estão e achar sua própria audiência, para que possa comunicar-se diretamente.

O sucesso dos criadores vendendo diretamente não afetará as lojas ou tomará sua audiência. Na verdade, acho que com os autores vendendo as obras digitais ajudará as comic shops; quando os leitores quiserem comprar cópias de álbuns impressos, os arcos estarão saudáveis, pois o autor já estabeleceu uma audiência para o álbum antes.

Acho que logo haverá uma web template com Paypal, onde leitores poderão ir ao site de um autor e pedir cópias digitais de seus trabalhos. O dinheiro irá diretamente para os criadores.

Também acho que os quadrinhos tomarão a forma das webcomics, mas com um modelo de assinaturas mensais estabelecido através de Facebook, Twitter, Google+ e Kickstarter.

Acho que esse modelo facilitará o pagamento dos autores, e eles não terão custos de impressão. A impressão também será opcional, mas acredito que será a segunda etapa de um ciclo depois de os criadores cuidarem deles mesmos. Todos amam livros impressos – incluindo eu mesmo – mas o segredo do sucesso é estabelecer sua base de fãs da mesma forma que as HQs digitais o fazem. Para isso, os autores tem de promover seus livros digitais como fariam com livros físicos. Os autores também terão de aprender a lidar com “figuras de irmãos mais velhos” para trazer mais tráfego e chamar a atenção para seus projetos.

Os criadores serão os primeiros novamente. Eu sei que existem vários mitos sobre o Kickstarter (como que os álbuns que vão parar no Kickstarter são os álbuns que foram rejeitados pelas editoras). Sinto, no entanto, que no futuro o Kickstarter será a primeira opção de diversos criadores como forma de distribuição. Outro mito é que usar o Kickstarter é implorar por dinheiro e esmolas, o que não é verdade; trata-se de um sistema de distribuição focado no criador do projeto e você está dando aos leitores algo de valor que você fez em troca de seu dinheiro e apoio.

Acho que veremos alguns milionários do mercado no Kickstarter, que tentarão dar ao financiamento colaborativo uma chance. Acho que no futuro, o objetivo dos criadores será em cuidar deles mesmos e é essencial que eles aumentem os números de sua audiência e estejam em contato direto com eles.

O sucesso dos criadores como distribuidores não será o fim do sistema que está em funcionamento hoje em dia. Na verdade ele será beneficiado, pois todos tem sua audiência única e base de fãs. Não existem duas bases de fãs iguais e o objetivo será o crescimento da audiência das HQs.

O céu é o limite.

*****

Mark Andrew Smith está com um novo projeto no Kickstarter. Chamado de Sullivan´s Sluggers – são dessa HQ as imagens do post -, o álbum foi financiada através do Kickstarter em apenas seis horas. 

Essa é a segunda vez que Mark trabalha com o apoio do Kickstarter. A primeira vez foi em 2011, quando Smith escreveu o segundo volume de The New Brighton Archeological Society (com desenhos de Matthew Weldon). Um trabalho independente, Smith e Weldon tinham apenas um problema: eles precisavam pagar a colorização do álbum. Seu pedido de US$ 6.000,00 rendeu mais de oito mil.

Com Sullivan´s Sluggers Smith tentou algo completamente diferente: a HQ só pode ser adquirida (legalmente) através do Kickstarter (nesse link). Após publicada, os interessados terão de emprestar ou comprar de uma loja de usados (dizem que a Amazon fez uma compra em atacado. Eles já anunciam a obra aqui).

Mark Andrew Smith conseguiu fazer um burburinho com seu manifesto e nova maneira de apresentar as HQs à leitores. Preparem-se para uma grande leva de HQs no Kickstarter nos próximos três meses.

Obviamente, como já nos mostraram os amigos Luis Felipe Garrocho e Eduardo Damasceno, há como publicar HQs através do sistema de financiamento colaborativo. Achados e Perdidos, por sinal, está em sua segunda edição. Aproveite e ouça nossa entrevista com eles clicando aqui.

Você pode falar diretamente com ele através desse link, fazendo perguntas em seu tumblr.

* The Creator’s Bill of Rights pode ser lida aqui.

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