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Independência ou Morte

5horas 22 de junho de 2012 Opinião Nenhum Comentário
Independência ou Morte

Brasileiros são interessantes. Um povo alegre, descontraído e festivo. Um povo que gosta de encher o peito pra dizer que é livre.

Podem falar de William Wallace à vontade mas eu afirmo: Dom Pedro I gritou muito melhor. Mesmo parindo um povo que não sabe nem mesmo cantar o Hino Nacional, seu clamor de liberdade ressoa até hoje de maneira pouco — ou nada — convencional em termos internacionais.

Já tive a oportunidade de trabalhar com pessoas de diversos países e culturas distintas e muitos deles tomam essa atitude dos brasileiros como baderna. Bagunça. Loucura até.

Talvez por isso todo esse rebuliço relacionado ao fato de diversos autores de quadrinhos americanos estarem saindo do mainstream em busca do mercado independente choque tão pouco o Brasil. Pois esse é o país do independente.

(Ufa! Quadrinhos! Achei que estava no blog errado.)

Mark Waid, de quem já falamos aqui diversas vezes, escreveu em seu blog na semana passada um texto que causou certo furor na comunidade brasileira.

O autor, que abandonou o mercado mainstream em grande estilo (deixando inúmeros donos de comic book shops americanos ofendidos e preocupados quanto ao futuro de seu negócio), revelou na semana passada informações referentes à volume de acesso de seu site (webstats). O que ofendeu os brasileiros, na verdade, não foi o texto de Waid — que se mostrou surpreso ao dizer que o Brasil compunha o quarto maior público que acessava o site — , mas comentários feitos por outros usuários que claramente não sabem do que falam. (O autor foi super-simpático respondendo todos os comentários e até se desculpando por ter sido mal-interpretado).

Recentemente o artista Paolo Riviera se desligou da Marvel Comics, editora para o qual ele trabalhava exclusivamente há 10 anos. Em seu blog o artista foi super-amigável explicando sua decisão: apesar de a editora tratá-lo como parte da família, Riviera tem vontade de produzir material autoral.

Quem ouviu o Kokocast #03 também vai se lembrar da saída de Marko Djurdjevic da Marvel.

Some a isso Sean Murphy — que originalmente produziria sua história independente, mas acabou aceitando a oferta da Vertigo — e  Mark Andrew Smith — que não contente em sair do mainstream ainda resolveu publicar um manifesto sobre o assunto — e você percebe que isso é uma tendência.

E é interessante notar como o mercado brasileiro, cujo maior escopo é o quadrinho independente, está se saindo. E saindo na frente.

Há quem diga que as gráficas no Brasil são muito caras e outros que defendem que as gráficas são baratas (e que o problema é o salário do brasileiro). Há quem diga que os brasileiros não leem e há quem diga que quadrinhos não são literatura, são só desenhinhos num papel, coisa de criança. Há quem diga que os quadrinhos no Brasil estão em seu auge e há quem diga que não; que esse é só o início.

Independente de seu ponto de vista, não há como negar que o Brasil está saindo na frente nesse quesito. O FIQ 2011 foi o maior festival de quadrinhos da América no ano passado. Apesar da forte presença do mercado americano e japonês (havia representantes da Marvel, DC e editoras especializadas em mangás no Brasil), a maior parte da produção apresentada lá era independente. E acredite, era muita coisa.

A vantagem maior da produção independente é a sensação de ter em suas mãos algo seu. De não ter de ligar para a editora para decidir os rumos da história — como o próprio Alan Moore teve de fazer para a Piada Mortal. De se sentir verdadeiramente um autor e não mais um funcionário do mercado. Danilo Beyruthfalou sobre isso aqui e acho que vale a leitura.

Nós do Kokocast somos extremamente favoráveis ao mercado independente e queremos que ele cresça. Que o autor produza e seja tratado como tal. Há espaço, procura e necessidade para isso.

Como toda moeda, no entanto, existe o outro lado: muitos autores brasileiros bem que precisavam de um crítico — alguém ao lado que dissesse “isso não ficou claro, é melhor refazer”. Uma pessoa cujo comentário fosse levado à sério de maneira sóbria; falo de um editor. Mas aí voltamos ao começo do texto. Para diversos autores independência é isso aí. Independência é ignorar a opinião alheia e fazer o que tem vontade. Encher o peito e dizer: “Eu sou livre. Livre pra fazer o que eu quiser.”

Confundir liberdade com bagunça é um erro de principiantes assim como é infantil não aceitar críticas e viver estagnado. Coisa de criança mimada mesmo, do tipo “se não gostou do que eu fiz, ninguém está te obrigando a ler; saia fora”! Algo que mina o desenvolvimento do próprio autor. E isso é uma pena pois atrapalha o desenvolvimento do próprio trabalho e do mercado.

Alguém que critica seu trabalho não te rouba a independência; só te ajuda a melhorar. Mesmo os comentários mais ácidos e perversos não devem ser vistos como pedras atiradas contra o autor. Pense nisso: pedras podem tanto te derrubar quanto compor mais um degrau em sua escada. Por que não usá-las como tal?

 

* Os comentários feitos nos posts de opinião representam gostos pessoais do autor e não do blog Kokocast.

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